VI Festival Internacional da Canção – FIC/TV Globo
Kyrie - Trio Ternura

Nos primeiros meses de 1971, alguns dos maiores artistas da música brasileira exilados no exterior voltaram ao Brasil, entre eles Caetano Veloso, Edu Lobo e Carlos Lyra. Chico Buarque voltara da Itália no ano anterior. Entretanto, o controle da Censura, impossibilitava que a TV Globo incluísse os grandes compositores nacionais no VI  FIC.

A ideia de reaproximação com essas grandes figuras foi de Gutemberg Guarabira, então coordenador musical do evento, que propunha convidar os compositores para que participassem automaticamente do festival com composições inéditas. O projeto foi adiante, e em maio, a organização do festival comunicou que os principais órgãos da imprensa receberiam uma circular com a qual indicariam 12 nomes para serem convidados para o FIC na condição de hors-concours.

Em setembro, a Polícia Federal comunicou que todos os participantes do festival deveriam ser registrados em seus arquivos e que seriam emitidas carteiras de liberação, com identidade oficial e foto 3X4. Duas canções foram vetadas, “Corpos Nus”, de Taiguara, e “Pirambeira”, de Hermínio Belo de Carvalho e Maurício Tapajós, restando então 21 classificados, já que das 40 previstas, 17 seriam composições dos convidados.

Entretanto, apenas duas músicas desse grupo haviam sido entregues até então, para o processo de liberação, “Calabouço”, de Sérgio Ricardo, e “Instantâneos”, de Marcos Valle.

No dia 9, foi divulgado que das 17 vagas reservadas aos convidados, apenas dez seriam preenchidas. Dori Caymmi, Taiguara, Milton Nascimento, Ivan Lins, Baden Powell, Os Mutantes e Caetano Veloso se recusaram a participar. Há uma semana do início do festival, 12 compositores convidados, representantes de sete músicas, cancelaram sua participação, por meio de uma carta encaminhada à direção do FIC pelos editores de O Pasquim. A carta estava assinada por Paulinho da Viola, Ruy Guerra, Sérgio Ricardo, Tom Jobim, José Carlos Capinan, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Toquinho, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Edu Lobo e Egberto Gismonti. Para eles, o exército queria manter o controle total sobre o festival, depois de detectar que o FIC seria o melhor veículo de propaganda do Brasil, o único que poderia melhorar a imagem difundida no exterior, vinculada a perseguições e torturas.

Para eliminar essa tentativa do exército, Guarabira resolveu exercer um papel duplo. Convocou seus amigos compositores para uma reunião no apartamento de Chico Buarque, para apresentar um novo plano, bem recebido pelos presentes. A conspiração previa que depois que toda a divulgação do festival fosse feita, o grupo de compositores convidados escreveria uma carta retirando suas músicas do festival, como foi feito. Todos os compositores foram intimados a depor. Guarabira entrou em contato com outros compositores selecionados pela comissão para o festival e pediu que eles também retirassem suas músicas. Novo documento foi produzido, com a assinatura de vários outros compositores, que também optaram por abandonar o VI FIC, entre eles Gonzaguinha. Após o episódio a TV Globo começou a desconfiar de Guarabira, e depois de uma denúncia anônima feita por um dos concorrentes, resolveu demiti-lo.

Apesar da Censura, os militares não queriam que o público acreditasse que os compositores tinham força para impedir a Globo de realizar o FIC. Com o festival quase destruído, foi montado um esquema de emergência para tentar resolver a situação. Em uma coletiva de imprensa, o diretor do FIC, Augusto Marzagão anunciou as 50 e não mais 40 músicas que iriam participar das duas eliminatórias nacionais. Valia tudo, samba enredo, músicas já programadas para serem gravadas, temas reservados para futuras novelas. Para a Globo, o que interessava era a realização do festival, mesmo que ele fosse o mais medíocre já realizado.

Regina Duarte presidiria o júri oficial e Grande Otelo, o popular, composto por sete pessoas sorteadas. Na primeira eliminatória, apenas três músicas foram aplaudidas pelo público, que compareceu ao Maracanãnzinho, mais para assistir ao show do guitarrista Santana e sua Blues Band. Nem “Sanfona de Prata”, de Gonzaguinha, nem a campeã de Juiz de Fora, “Casa no Campo” despertaram a atenção da plateia. Destacaram-se apenas “Kyrie” (Paulinho Soares e Marcelo Silva) com o Trio Ternura, “O Visitante” (Jorge Amidem e César das Mercês) com O Terço, e “Desacato” (Antônio Carlos e Jocafi) com o grupo Brasil Ritmo. Na segunda eliminatória, realizada em um Maracanãnzinho praticamente vazio, e nenhuma das músicas conseguiu motivar quem estava no local.
Faltava matéria prima ao VI FIC: músicas.

Na final nacional ficou claro que apenas duas músicas seriam bem aproveitadas, como de fato foram, “Desacato” e “Casa no Campo”, dos mineiros Zé Rodrix e Tavito, gravada por Elis Regina, presidente do júri internacional. “Kyrie” foi escolhida a representante nacional na final, mas pelos arranjos e pela interpretação do Trio Ternura.
Conquistou o terceiro lugar geral, sendo que, o grande premiado da noite foi o bolero mexicano “Y Después del Amor”, de Arturo Castro.

O disco oficial do VI FIC fazia parte de um processo de montagem do selo Som Livre para o lançamento de trilhas de novelas da TV Globo. O disco, que trazia a observação “as favoritas” na capa, continha 12 das 20 canções finalistas.

 

Kyrie
(Antonio Adolfo e Tibério Gaspar)
Intérprete: Toni Tornado

A gente corre na BR-3
A gente morre na BR-3
Há um foguete
Rasgando o céu, cruzando o espaço
E um Jesus Cristo feito em aço
Crucificado outra vez
E a gente corre na BR-3
E agente morre na BR-3
Há um sonho
Viagem multicolorida
Às vezes ponto de partida
E às vezes porto de um talvez
E a gente corre na BR-3
E a gente morre na BR-3
Há um crime
No longo asfalto dessa estrada
E uma notícia fabricada
Pro novo herói de cada mês

 

 

 

 


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