V Festival Internacional da Canção – FIC/TV Globo
BR-3 - Toni Tornado

Em tempos de ditadura militar, o que interessava ao governo em 1970 era mostrar ao mundo que o povo brasileiro era feliz. A conquista da Copa do Mundo no México reforçava essa imagem. O FIC, com um público animado, torcendo livremente por suas canções, desde que não ofendesse a família brasileira, era mais uma grande vitrine.

Mais uma vez dirigido por Augusto Marzagão, o festival teria em sua quinta edição 40 concorrentes, nas eliminatórias cariocas, realizadas no Maracanãnzinho, sendo que cinco dessas vagas foram destinadas a São Paulo. Entre as cinco classificaram –se na etapa  paulista: “Sermão” (Baden Powell e Paulo César Pinheiro) com Cláudia e “Rio Paraná” (Ary Toledo e Chico de Assis) com Tonico e Tinoco, primeira música caipira a concorrer em um festival.Gutemberg Guarabira, vencedor do II FIC assumiu o cargo de coordenador musical. Amigo dos compositores que freqüentavam festivais, no fundo, Gutemberg ainda era um deles.

Outra novidade desse ano foi a obrigatoriedade de que os compositores participantes assinassem o contrato de edição de suas músicas com a editora Cannes. Na época, a prova de autoria de uma música era a publicação de uma partitura impressa por uma editora com quem o autor realizava um contrato. A editora cobrava então uma porcentagem para defender a parte patrimonial da obra. A ideia da TV Globo, este ano a maior investidora no festival, era ressarcir, dessa forma, suas despesas.

No dia 15 de outubro, a primeira eliminatória do V FIC teve início, sendo transmitida  em cores para Estados Unidos e Europa. Além do júri oficial, presidido por Paulinho da Viola, foi criado um júri popular, com votação independente, sob o comando de Chacrinha. Os dois primeiros a  apresentar foram Maria e Luís Antônio, à frente de um grupo com seis músicos negros, todos vestidos com batas africanas coloridas, para interpretar “Abolição 1860-1980” (Dom Salvador e Arnoldo Medeiros). Muito aplaudida, a apresentação deu a pista do que seria a tônica do festival em 1970: a soul music.

Entre os demais 20 concorrentes da noite estavam Cláudia, Cauby Peixoto e Fábio com “Encouraçado” (Sueli Costa e Tite de Lemos) e novos grupos como O Terço, que defenderam “Um Milhão de Olhos”, de Jorge e Sérgio , com boa receptividade e Som Imaginário, com “Feira Moderna” (Fernando Brant e Beto Guedes). O mais comentado artista da noite, vencedor pelo júri popular, foi Ivans Lins, com “O Amor É Meu País”.

Após a eliminatória, o presidente Médici informou que receberia os jornalistas estrangeiros para uma audiência no Palácio das Laranjeiras, com o intuito de melhorar e ampliar a imagem do Brasil no exterior.

Na segunda eliminatória, Wanderléa era quem tinha o maior apoio popular. Em sua primeira participação no FIC, a cantora defendeu “A Charanga” dela e do novo compositor Dom, mais uma que aderiu a soul music. Antes dela já haviam passado pelo palco oito candidatos, sendo que o primeiro da noite foi Martinho da Vila com o partido-alto “Meu Laiaraiá”. A dupla sertaneja Tonico e Tinoco foi intensamente vaiada ao apresentar “Rio Paraná”. Mais dois grupos passaram pelo palco, A Tribo, com o baião “Onoceonokotô”, e O Grupo, com “E Coisa e Tal” (Eduardo Souto e Sérgio Bittencourt). A décima segunda concorrente da noite agradou bastante, “Universo no Teu Corpo”, com Taiguara.

Toni Tornado, com seu cabelo African look que o deixava ainda maior, era a mais aguardada atração da noite. Defendendo a música de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, com a participação do Trio Ternura, Toni mostrou uma performance surpreendente ao cantar “BR-3”.Apresentaram-se ainda Luiz Gonzaga Jr. com “Um Abraço Terno em Você, Viu Mãe?”, e César Costa Filho com “Diva”. A última atração da noite foi o maestro Erlon Chaves, acompanhado pela Banda Veneno e por um corpo de baile, com sua “Eu Também Quero Mocotó” (Jorge Ben), que sacudiu o festival, tornando-se o maior rival de Tornado.

A rivalidade se confirmou durante a final. Taiguara, o preferido de Chacrinha e Ivan Lins também esperavam ganhar. Depois de uma homenagem a Luiz Gonzaga, o resultado foi o seguinte:  Taiguara ficou apenas com o oitavo lugar, “Eu Também Quero Mocotó” em sexto, Gonzaguinha com o quarto e Ivan Lins com o segundo. A grande campeã, pelo júri oficial e pelo júri popular, foi mesmo BR-3.

Tricampeão no futebol, o mesmo não se repetiu na música. BR-3 conquistou o terceiro  lugar na final internacional. O primeiro foi “Pedro Nadie”, de José Tcherkaski e do cantor Piero Benendictis, que defendiam a Argentina.

O maestro Erlon Chaves, que defendia “Eu Também Quero Mocotó” preparou uma performance ainda mais quente para a reapresentação de sua música na final. No número, várias garotas em trajes cor de pele o beijavam e Erlon substituía a verso “escravos de sultão” por “gatas do Canecão”. A ousadia deixou as esposas brancas horrorizadas. Na plateia, muitas vaias. Assim que saiu do palco, Erlon foi imediatamente  preso acusado de atentado à moral.Com ele, Boni, o diretor da TV Globo, responsável pela transmissão. Liberado em seguida, Erlon foi mais uma vez preso. Comentava-se que as esposas de alguns generais teriam se sentido muito ofendidas. Solto após alguns dias, Erlon foi proibido de exercer suas atividades profissionais durante 30 dias o que desmanchou sua carreira de cantor.

O romance iniciado entre Toni Tornado e Arlete Sales, uma das apresentadoras do FIC também se tornou uma ofensa a sociedade branca. Para piorar os ânimos, “BR-3” tornou-se um hino da turma que fumava maconha na zona sul do Rio, prejudicando uma possível trajetória de sucesso para a música e seu intérprete.

O V FIC foi marcado pelo racismo e preconceito contra artistas negros, que tanto contribuíram para o crescimento da música brasileira e internacional.

 

BR-3
(Antonio Adolfo e Tibério Gaspar)
Intérprete: Toni Tornado

A gente corre na BR-3
A gente morre na BR-3
Há um foguete
Rasgando o céu, cruzando o espaço
E um Jesus Cristo feito em aço
Crucificado outra vez
E a gente corre na BR-3
E agente morre na BR-3
Há um sonho
Viagem multicolorida
Às vezes ponto de partida
E às vezes porto de um talvez
E a gente corre na BR-3
E a gente morre na BR-3
Há um crime
No longo asfalto dessa estrada
E uma notícia fabricada
Pro novo herói de cada mês

 

 

 

 


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