V Festival da TV Record
Sinal Fechado - Paulinho da Viola

Realizado no Teatro Record Augusta, antigo cine Regência, o V Festival da Música Popular Brasileira foi marcado por mudanças polêmicas. Um júri avaliaria as canções participantes, porém, logo depois da apresentação elas seriam submetidas a uma espécie de tribunal, formado por dois grupos distintos, em uma simulação de “defesa” e “acusação”, com o objetivo de polemizar. Cada um dos membros poderia emitir, ao vivo, sua opinião.

Outra resolução também chocaria os participantes. Em uma atitude de censura, a organização do evento proibiu o uso de guitarras elétricas durantes as apresentações. A intenção da direção do festival era transformá-lo em quatro grandes programas de televisão.

Depois de selecionadas as 42 músicas que disputariam o V Festival da Record, uma delas, “Clarice” (Eneida e João Magalhães) precisou ser substituída, por não ter sido aprovada pela Censura. Em seu lugar entrou “Nas Areias da Lua” (Onizete Marizinho e Saulo Farias).

Com um palco abarrotado com três grupos de jurados e debatedores teve início a primeira eliminatória. Após cada apresentação musical, os debatedores tinham direito à fala e só depois os jurados podiam se manifestar. Artistas como Elza Soares, Paulinho da Viola, Maria Creuza e Elton Medeiros eram tratados como calouros, muitas vezes sendo achincalhados. Ao término da apresentação de Paulinho da Viola, sua música foi rotulada por um dos debatedores como “verdadeira canção de ninar defuntos”, sendo contestado por Maysa, que integrava o júri.

Nada se parecia com os festivais anteriores e poucas músicas despertaram interesse. Classificaram-se “Bola Branca”, de Paulinho Nogueira, interpretada por Cláudia,
“Gostei de Ver”, de Eduardo Gudin e Marco Silva Ramos, com Márcia e os Originais do Samba, “Comunicação”, de Edson Alencar e Helio Matheus, com Vanusa, “Catendê”, de Jacafi, Onjas e I. Tavares, com Os Caçulas, “Hei, Mister!”, de Ary Toledo e Chico Assis, e “Sinal Fechado”, de Paulinho da Viola. Para Nilo Scalzo, de O Estado de S. Paulo, a eliminatória foi “mais um espetáculo de televisão com tempero da vulgaridade como ingrediente obrigatório para garantir audiência e pontos no Ibope”.

Para Tom Zé, que se apresentou na segunda eliminatória, o festival perdia suas características. Cantor e músicas haviam se transformado em complementos. A participação de Agnaldo Rayol, que interpretou “Infinito” (Reginaldo Bessa) arrebatou a torcida feminina presente no teatro. Para as garotas, pouco importava a música cantada por ele. Depois de cantar “Bola pra Frente”, Tom Zé foi chamado por um dos “acusadores” de besta quadrada. “Moleque”, com Luiz Gonzaga Jr., foi uma das classificadas. As outras foram: “Tu Vais Voltar” (Ribamar e Romeu Nunes) com Antônio Marcos, “Alô, Helô” (Nonato Buzar) com Edgar e Os Tais, “Infinito” e “Monjolo”.

A terceira eliminatória só comprovaria a impressão de todos. Chegara a falência dos festivais. Foram classificadas: “Sou Filho de Rei” (João Mello e Fernando Lobo) com Clara Nunes, “Primavera” (Lupicínio Rodrigues e Hamilton Chaves) com Isaurinha, “Casa Azul” (Roberta Faro), “Jeitinho Dela” (Tom Zé) com ele e os Novos Baianos e “Clarisse”, afinal liberada pela Censura, com Agnaldo Rayol.

A primeira a se apresentar na final “Gostei de Ver”, pela reação do público, era uma das favoritas do público. Vanusa, tinha grande parte dos jovens a seu favor ao apresentar “Comunicação”, já “Sinal Fechado” contava com a preferência de músicos e entendidos. A partir daí poucas animaram o auditório, sobrando vaias para todo mundo.

Durante o anúncio das vencedoras, as vaias engrossaram. Em quinto lugar “Monjolo”, composição em um estilo considerado superado em termos de festival. A quarta colocada, “Gostei de Ver”, foi recebida aos brados de “Primeiro! Primeiro!”. Vanusa conquistou o terceiro lugar com “Comunicação” e Rayol, o segundo, para “Clarisse”.

“Moleque”, de Gonzaguinha, ficou com o prêmio de melhor letra e “Sinal Fechado” com o de melhor arranjo, além ter sido escolhida a grande vencedora do festival. Nos bastidores, comentava-se que o resultado havia sido a maior justiça já feita em festivais.

Sinal Fechado
Sem um ritmo definido, a composição parecia uma música de gênero indefinido, completamente deslocada na obra de Paulinho. O diálogo evasivo, fez com que anos mais tarde, quando Chico Buarque gravou-a, muitos acreditassem que a música fosse sua.

Como a maioria dos artistas brasileiros, Paulinho da Viola sofria com a sensação de isolamento gerada pela partida de colegas para fora do país, fugindo da repressão. Essa dificuldade do diálogo, a necessidade de fuga e o isolamento na cidade são abordados na letra, considerada por muitos a melhor música de festival com conotação política elaborada durante o regime militar.

 

Sinal Fechado
(Paulinho da Viola)
Intérprete: Paulinho da Viola

Olá, como vai ?
Eu vou indo e você, tudo bem ?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você ?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe ...
Quanto tempo... pois é...
Quanto tempo...
Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios
Oh! Não tem de quê
Eu também só ando a cem
Quando é que você telefona ?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo talvez nos vejamos
Quem sabe ?
Quanto tempo... pois é... (pois é... quanto tempo...)
Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente
Pra semana
O sinal ...
Eu espero você
Vai abrir...
Por favor, não esqueça,
Adeus...

 

 

 

 


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