IV Festival da TV Record
São, São Paulo Meu Amor – Tom Zé

Mil novecentos e sessenta e oito foi um ano agitado, em todos os sentidos. Para a música brasileira, foi uma ano de muitas revelações. Ano de Bienal do Samba, do III FIC e da quarta edição do Festival da TV Record e da Tropicália.

A novidade deste ano para o IV Festival da Record seria uma votação popular, paralela à votação oficial realizada pelo júri, dando origem a duas premiações distintas. A ideia, proposta pelo compositor Sérgio Ricardo, era “socializar o festival”. O júri oficial seria composto por 14 convidados, sendo que sete membros ficariam postados no Teatro Record e, os outros sete, acompanhariam o festival pela televisão. Para o júri popular seriam formadas 14 equipes de sete membros, sendo sete no interior, nomeadas por autoridades locais, e sete na capital, distribuídas em clubes da cidade.

Esta seria uma edição movimentada por uma nova geração de intérpretes, já que desgostosos com as vaias do ano anterior, grandes nomes do cast da emissora se recusaram a participar. Outro problema seria a Censura Federal. Dez dias antes da primeira eliminatória, algumas músicas ainda não haviam sido liberadas. “Dia de Graça” (Sérgio Ricardo), “O General e o Muro” (Adilson Godoy), “São, São Paulo Meu Amor” (Tom Zé) e “Dom Quixote” (Rita Lee Jones). Essa última, precisou trocar o verso “Armadura e espada a rifar” por “Armadura e lança”, já que a palavra espada poderia conter algum tipo de referência ao Exército brasileiro.

Gal Costa em trajes irreconhecíveis

O festival teve início com a apresentação das 36 músicas concorrentes em dois blocos de 18, para que as mesmas fossem apresentadas ao público. Para a organização do evento, essa aproximação com a plateia evitaria que ocorressem vaias.

No Teatro Record Centro, nada de brigas entre torcidas, poucos cartazes e pouco entusiasmo para a primeira eliminatória. “A Grande Ausente” (Francis Hime e Paulo César Pinheiro, a toada “Bonita”, “Descampado Verde” (Chico Maranhão) e “Madrasta”. A primeira e a última também estavam na seleção do júri oficial, assim como, “Dia de Graça” e “2001” (Tom Zé e Rita Lee), que teve a maior votação embora tenha sido a última colocada na preferência do júri popular. Um erro na contagem dos votos populares fez com que “Rosa da Gente” (Dori Caymmi e Nelson Motta) substituísse “Madrasta”.

A segunda eliminatória trouxe de volta alguma vibração com a segunda concorrente, defendida com entusiasmo por Elza Soares, “Sei Lá Mangueira”, de Hermínio Bello de Carvalho e Paulinho da Viola. A quarta canção foi “Memórias de Marta Saré”, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, parte de uma peça escrita pelo segundo e estrelada por Fernando Montenegro. A canção, interpretada pela dupla já vencedora de um festival, Edu Lobo e Marília Medalha, foi muito bem recebida.

Gal Costa canta "Divino, Maravilhoso" para uma platéia em êxtase

As músicas seguintes foram recebidas sem muito entusiasmo, até a apresentação da nona concorrente “Divino, Maravilhoso” interpretada por uma Gal Costa irreconhecível, com roupas berrantes e atitudes agressivas, que nada lembrava a baiana tímida apelidada de “João Gilberto de saias”. Aplaudidíssima, Gal saiu do palco sob gritos de “Já ganhou!”. O mais vaiado da noite foi Jorge Ben ao fazer o gesto do poder negro, depois de apresentar “Queremos Guerra”.

O júri oficial classificou as duas mais aplaudidas da noite, “Divino Maravilhoso” e “Sei Lá Mangueira”, além de “Memórias de Marta Sare” e “Terra Virgem” (Adilson Godoy e Saulo Nunes), cantada por Márcia. Para o júri popular as melhores foram “Marta Sare”, “Terra Virgem”, “Diálogo” (Marcos Valle e Milton Nascimento) e “Choro do Amor Vivido” (Eduardo Gudin e Walter Carvalho) com os Três Morais.

Tom Zé, recebido com entusiasmo pela homenagem a São Paulo

Para quem se preocupava com a falta de vaias, a terceira eliminatória foi quente. Começava a ficar claro o embate entre a corrente tradicional, que apoiava o samba, e a revolucionária, partidária do Tropicalismo. O samba de partido-alto “Casa de Bamba”, de Martinho da Vila, levantou o teatro. Tom Zé, acompanhado pelo Canto 4 e pelo conjunto Os Brasões foi recebido com entusiasmo. “São, São Paulo Meu Amor” foi recebida como uma homenagem ao público presente.

“Sem Mais Luanda” (Joyce e José Rodrigues) foi muito vaiada, enquanto “Benvinda”, com Chico Buarque e o MPB4 foi bem recebida apesar dos protestos dos torcedores tropicalistas. Dividindo opiniões, “Dom Quixote” dos Mutantes gerou novo agito na plateia. “Cantiga” (Caetano Zamma e C. Queiroz Telles) foi a mais vaiada da noite e “Sentinela”, interpretada por Milton Nascimento, Cynara e Cybele surpreendeu pela harmonia.

Dessa vez os jurados concordaram na escolha de três músicas: “Benvinda”, “São, São Paulo Meu Amor” e “Sentinela”. O júri popular optou também por “A Família” (Ary Toledo e Chico Anísio), com Jair Rodrigues e os Golden Boys, e o especial pela mal recebida “Cantiga”. Fortalecendo a ideia do tropicalismo, Tom Zé e Gal Costa despontavam como os favoritos do IV Festival da TV Record.

O modelo de festival dos anos 60 seria inconcebível nos dias de hoje para transmissões televisivas. Em cada uma das eliminatórias, após a apresentação das 12 concorrentes, as selecionadas pelo júri eram reapresentadas. Com a distinção do júri em dois grupos, a reapresentação era duplicada. Dá para pensar em um programa como esse na TV Globo atual?

Na final, “Bonita” foi defendida pelo Trio Marayá, já que Geraldo Vandré não apareceu. Apresentaram-se mais quatro concorrentes sem muito destaque até a sétima concorrente: em “São, São Paulo Meu Amor” todo o teatro ficou de pé. Depois dela apresentaram-se “Terra Virgem” e “Sentinela”. Mas um momento de euforia ocorreu com a entrada de Chico Buarque para defender  “Benvinda”. Taiguara iniciou sua apresentação de “A Grande Ausente” sob muitas vaias, que foram totalmente controladas com o desenrolar da canção. Na seqüência, Maria Medalha cantou “Marta Sare”, e os Mutantes “2001”, mais uma vez com um visual totalmente inusitado. “Cantiga” foi mais uma vez a mais vaiada da noite. Elza Soares, Sérgio Ricardo e Roberto Carlos foram os intérpretes seguintes. “Divino, Maravilhoso” saiu aclamada.

Os Mutantes apresentam "2001": roupas bufantes e metálicas foram um marco no festival

Já passava da meia noite quando foram anunciados os vencedores. Na votação do júri popular “A Grande Ausente” foi a sexta colocada, “São, São Paulo Meu Amor”, a quinta; “Bonita”, a quarta; “A Família” ficou em terceiro, “Marta Saré” em segundo, e “Benvinda” em primeiro. No júri especial, Chico Buarque ficou com a sexta colocação, “Dia de Graça” (Sérgio Ricardo) em quinto, “2001” (Tom Zé e Rita Lee) em quarto, “Divino, Maravilhoso” (Gilberto Gil e Caetano Veloso) em terceiro, e “Memórias de Marta Saré” em segundo. Em primeiro lugar “São, São Paulo Meu Amor”. O prêmio de melhor arranjo foi para “Marta Sare” e o de melhor letra para “2001”.

"São oito milhões de habitantes...". São, São Paulo Meu Amor, a grande vencendora do Festival, com interpretação de Tom Zé

Apesar do destaque conferido a cantores considerados coadjuvantes na época, como Tom Zé, Gal Costa e Martinho da Vila, o IV Festival da TV Record marcou uma grande debandada de compositores e cantores dos festivais. Roberto Carlos desistiu dessa atividade. Chico Buarque foi obrigado a dizer tchau depois de problemas com a polícia que o fizeram permanecer na Europa, Milton Nascimento se decepcionou com a performance de “Sentinela”, Edu Lobo foi estudar orquestração em Los Angeles, assim como, vários outros artistas tiveram seus motivos. Em 1968, a Era dos Festivais começava a percorrer uma curva descendente.

 

 

São, São Paulo Meu Amor
(Tom Zé )
Intérprete: Tom Zé

São, São Paulo meu amor
São, São Paulo quanta dor
São oito milhões de habitantes
De todo canto em ação
Que se agridem cortesmente
Morrendo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor
São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Caseados à prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor
Salvai-nos por caridade
Pecadoras invadiram
Todo centro da cidade
Armadas de rouge e batom
Dando vivas ao bom humor
Num atentado contra o pudor
A família protegida
Um palavrão reprimido
Um pregador que condena
Uma bomba por quinzena
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor
Santo Antonio foi demitido
Dos Ministros de cupido
Armados da eletrônica
Casam pela TV
Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
E aqui é só trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo

 


 


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