III Festival Internacional da Canção – FIC/TV Globo
Sabiá - Cynara e Cybele

Em 1968, os jovens, amparados pelo marxismo e por uma grande dose de romantismo, se rebelaram contra o sistema capitalista. Para eles, o sistema só cederia pela violência, e essa foi desferida contra o regime militar.

No Rio de Janeiro, artistas, intelectuais e clero realizam a Passeata dos Cem Mil, com participação de Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Milton Nascimento. A partir daí, o Comando de Caça aos Comunistas invade os camarins do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, leva os atores de Roda Viva para a rua, espanca-os e depreda o teatro. Como a música popular havia se transformado em um meio de representação política estudantil, os festivais seriam o ambiente ideal para a resistência.

Alheios à situação, os organizadores do FIC iniciaram os trabalhos para selecionar 24 músicas entre as 1.008 inscritas para a fase paulista. Essa seria uma das novidades do III FIC. São Paulo teria direito a seis vagas nas semifinais semanais, Minas a duas, Bahia, Pernambuco, Paraná e Rio Grande do Sul a uma cada e o Rio, às 28 restantes, totalizando 40 canções que concorreriam mais uma vez no Maracanãzinho. Outra novidade seria a montagem de um júri carioca ligado à área da música.

As 24 músicas escolhidas na fase paulista davam mostra da realidade política e do descontentamento com a situação do país: “´É Proibido Proibir” (Caetano Veloso), “Canção do Amor Armado” (Sérgio Ricardo), “Questão de Ordem” (Gilberto Gil), “América, América” (César Roldão Vieira) e “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” (Geraldo Vandré). “Há soldados armados, amados ou não/ quase todos perdidos de armas na mão/ nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição/ de morrer pela pátria e viver sem razão...”. Esse tipo de letra, sem dúvidas, traria problemas à produção do festival.

Atenção: o vídeo a seguir contém cenas sobre a época da ditadura que podem ser consideradas fortes por algumas pessoas
Geraldo Vandré cantando "Pra não dizer que não falei das flores" (com uma sequência de imagens da época). A música se tornou um hino da resistência na época da ditadura brasileira

Chegou a noite da fase paulista. O público se espremia para ver a tão comentada roupa de plástico de Caetano. O primeiro a se apresentar foi Jorge Ben, com a música Congada, que não foi recebido com muito entusiasmo. Por outro lado, os Mutantes, com “Caminhante Noturno”, levantaram o público, que exibia cartazes como “Tropicalismo é liberdade”. “Gabriela Mais Bela”, de Roberto e Erasmo Carlos, interpretada por Gal Costa, pouco agradou.

Novato em festivais, Rolando Boldrin foi imensamente aplaudido  ao cantar “Onde Anda Iolanda”, de Toquinho e Paulo Vanzolini. “Na Boca da Noite”, com o grupo vocal Canto 4 e a cantora Ivete, não empolgou.

Caetano Veloso, com uma cabeleira à la Jimi Hendrix e a tão comentada roupa de plástico, foi a sensação da noite, com sua “É Proibido Proibir”. Seu arranjo, cheio de ruídos, guitarras e sons eletrônicos, assim como a interpretação do americano John Dandurand, com seus berros desconexos, foram muito rejeitados pelo público. Apesar das reações adversas, “É Proibido Proibir” foi uma da seis classificadas. As outras foram “Canto do Amor Armado”, “Quadro” (Carlos Viana e José Márcio), “Caminhante Noturno”, “Na Boca da Noite” e “Onde Anda Iolanda”.

Na segunda semifinal paulista, “Questão de Ordem”, de Gilberto Gil, que se apresentou acompanhado pelos Beat Boys foi eliminada. O Tropicalismo anárquico começava a ser rejeitado. Entre as seis que passaram para a final estavam “Oxalá” de Théo Barros, “Dança da Rosa” de Chico Maranhão, “América, América”, de César Roldão Vieira, e a temerosa “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré.

A final paulista, realizada no da 15 de setembro, começou com uma imensa vaia para os Mutantes. Vandré se apresentou apoiado pelo público. Entretanto, a apresentação de “É Proibido Proibir” ofuscou o que aconteceu dali por diante. Vaiado e xingado, Caetano começa um discurso que entraria para a história: “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir no ano passado!... Quem teve essa coragem de assumir essa estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu. Não foi ninguém, foi Gilberto Gil e fui eu!”. Depois de uma chuva de tomates e bolas de papel, Caetano continua seu discurso com Gil, que entra no palco e permanece abraçado ao amigo. Ao final, Caetano pede ao júri que o desclassifique junto com Gil e, depois de quatro minutos de extrema exaltação, grita “Chega!” e sai abraçado a Gil e aos Mutantes.

Ouça o trecho original em que Caetano se revolta com a platéia, em meio às vaias e xingamentos do público.

Para a classe estudantil, a grande dúvida era porque os baianos não se posicionavam como esquerda, assim como eles faziam. Para a juventude da época, apenas talento não era suficiente, era preciso ter talento acompanhado de um posicionamento político.

Classificaram-se para a etapa nacional “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, “Oxalá”, “América, América”, “Dança da Rosa” e, para surpresa de todos, “É Proibido Proibir”. Uma semana antes da primeira eliminatória, devido ao grande sucesso da fase paulista, mais duas músicas foram incluídas na fase nacional: “Caminhante Noturno” e “Na Boca da Noite”. Representando o estado de Minas, “Corpo e Alma” (Augusta Maria Tavares) e “Festa do Povo” (Jota D’Ângelo); da Bahia, “Maria É Só Você” (Carlos Coqueijo e Alcivando Luz); de Pernambuco, “Por Causa de um Amor” (Capiba); do Rio Grande do Sul, “Tempo de Partir” (Sérgio Kanpp); e do Paraná “Roteiro” (Lápis e Paulo Vitola). Entre as definidas na etapa carioca, as mais comentadas eram “Andança”, “Sabiá”, “Salmo”, “Meu Sonho Antigo”, “Maré Morta” e “Dia de Vitória”; pouco se falava sobre “O Sonho”, de Egberto Gismonti.

Alguns problemas começaram a surgir. Caetano desistiu de participar do FIC. Já os convidados estrangeiros temiam vaias e não se mostravam propensos a participar.

A primeira eliminatória nacional contou com 23 composições. A primeira música apresentada foi “Meu Sonho Antigo”, de Sérgio Bittencourt, com Taiguara. Entre as concorrentes do Rio duas foram destaque: “Dia da Vitória”, de Marcos Valle e “Andança” (Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Pulinho Tapajós) com os Golden Boys e Beth Carvalho. “Salmo”, interpretada pelo letrista Mário Telles foi vaiada, o mesmo acontecendo com “Maré Morta”, de Edu Lobo e Ruy Guerra. “Na Boca da Noite” foi bem aplaudida, mas a grande surpresa da noite foi “Caminhante Noturno”, com os Mutantes, em uma apresentação muito elogiada.

Entre as 19 músicas que compunham a segunda eliminatória, “Sabiá” (Tom Jobim e Chico Buarque), bem representada por Cynara e Cybele, foi muito aplaudida. Causando grande impacto, “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” foi ovacionada, deixando Vandré tão emocionado que chegou a passar mal nos bastidores. O veterano Silvio Caldas foi o destaque da noite ao cantar “Rainha do Sobrado”, de Eduardo Souto Neto, um garoto de 17 anos. “O Sonho”, defendida pelo próprio Egberto, com o grupo vocal Os Três Morais impressionou o júri. A interpretação de “América, América” também mereceu destaque.

Apesar de letras como as de Vandré e César Roldão serem cantadas livremente, a censura não estava amolecendo e a juventude, enfim, tomando o poder. “Andança” e “Pra Não Dizer que não Falei das Flores” foram acompanhadas por um coro de milhares de pessoas na final nacional do III FIC. “Sabiá”, também foi muito bem aceita.

Antes de se divulgar o resultado com as vencedoras, a organização do festival estava apreensiva com a possibilidade de “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” ganhar a final nacional, já prevendo problemas com a Censura. “Caminhante Noturno” foi anunciada como a sexta colocada, o que deixou a torcida dos Mutantes inconformada. Em quinto lugar, “Dia de Vitória” com Marcos Valle e “Pescalha” com Quarteto 004. “Andança” com Beth e os Golden Boys empolgou Elis, que estava na plateia.  Quando foi anunciada que “Pra Não Dizer que não Falei das Flores” ficou em segundo lugar e que “Sabiá” era a vencedora, a multidão disparou com fúria suas vaias. Na reapresentação da vencedora, Cynara e Cybele foram tão vaiadas que Geraldo Vandré e Tom Jobim se posicionam junto a elas como forma de apoio (Chico Buarque estava em Veneza). Como recordou o filho de Tom, esse foi o dia mais negro de sua vida.

Sabiá, a vencedora, apresentada na final internacional do III FIC como representante brasileira por Cynara e Cybele, enquanto Chico e Tom acompanham pela plateia. A TV Globo nunca soltou o vídeo da final nacional, em que Sabiá ganhou de "Pra não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré.

Tom Jobim convenceu Chico a voltar para a parte internacional do III FIC. Chico antecipou sua volta e no dia seguinte à sua chegada, “Sabiá”, Cynara e Cybele, Tom e Chico Buarque foram consagrados, conquistando o primeiro lugar na final internacional por decisão de um júri presidido pelo americano Harry Warren.

“Pra Não Dizer que Não Falou das Flores” ficou proibida por quase 20 anos, tendo uma trajetória em discos restrita, mas acabou tornando-se um hino de protesto. Com o passar do tempo, a procura por Vandré foi tão intensa que ele precisou sair clandestinamente do país em 1969, fugindo da repressão militar.

Para Tom Jobim, esta foi sua primeira e última participação em um FIC. Elis também encerrou ali suas participações. Despediram-se ainda Caetano e Gil, que mantinham relações delicadas com o poder militar.

 

Sabiá
(Tom Jobim e Chico Buarque)
Intérpretes: Cynara e Cybele

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De um palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor Talvez possa espantar
As noites que eu não queira
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Sei que o amor existe
Não sou mais triste
E a nova vida já vai chegar
E a solidão vai se acabar
E a solidão vai se acabar

 


 


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