I Bienal do Samba da TV Record
Lapinha

Com o término do III Festival da TV Record, figuras da noite carioca começaram a argumentar que as músicas apresentadas em festivais não era exatamente a música brasileiras de todo dia. Eles sentiam falta do samba. Daí surgiu a ideia de realizar um outro festival em que o ritmo fosse a grande estrela, realizado de dois em dois anos, uma Bienal do Samba.

Comandada por Solano Ribeiro, a I Bienal do Samba convidaria seus participantes, escolhidos por uma comissão de 15 membros, sendo nove cariocas e seis paulistas. Seriam 36 compositores escolhidos por sua representatividade. A velha guarda seria privilegiada, entre eles: Donga, Pixinguinha, Claudionor Cruz, Ataulfo Alves, Cartola, Nelson Cavaquinho, Lupicínio Rodrigues e Adoniram Barbosa. Dos mais novos foram convidados Baden, Zé Kéti, Marcos Valle, Chico Buarque, Tom Jobim, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Elton Medeiros, Sidney Miller e Billy Blanco.

O palco da TV Record foi decorado com três enormes pandeiros ao fundo para a primeira eliminatória. A primeira música, cantada por Elis Regina, acompanhada pelos ainda quase desconhecidos Originais do Samba, era “Lapinha”. Isaurinha Garcia cantou “Ingratidão”, do grande Ismael Silva, seguida por outro sambista de São Paulo, Germano Mathiask que defendeu “Sandália da Mulata”, de Donga e Walfrido. Na seqüência a mais nova promessa da música brasileira, Milton Nascimento, defendeu o samba “Tião, Braço Forte”, dos irmãos Valle, mas nem de longe se equiparou a “Viola Enluarada” que ele cantava com Marcos. Zé Kéti, mais uma nova personalidade do samba, defendeu com o coral Bach, “Foi Ela”, agradando em cheio.

“Mulher, Patrão e Cachaça” foi apresentada pelos Demônios da Garoa. Já Chico Buarque defendeu seu próprio samba, “Bom Tempo” com Toquinho ao violão e a orquestra regida por Gaya e também conquistou o público. Entretanto, Noite Ilustrada, ex motorista de Carmen Miranda, foi magistral na representação “Marina”, de Sinval Silva. Jair Rodrigues cantou o samba “Coisas do Mundo, Minha Nega”, de outra promessa da música brasileira, Paulinho da Viola

Chico Buarque, aplaudidíssimo na apresentacão de Bom Tempo

No intervalo, antes do anúncio das classificadas, Aracy de Almeida cantou em uma homenagem a Noel Rosa. Como já era esperado, “Lapinha”, de Baden Powell e do estreante Paulo César Pinheiro, “Bom Tempo”, de Chico Buarque, “Foi Ela”, com uma reapresentação empolgante de Noite Ilustrada, porém foi acusada de já ter sido cantada em um filme, não sendo, portanto, inédita. “Coisas do Mundo, Minha Nega”, de Paulinho da Viola foi a substituta.

A etapa seguinte, não pôde contar com uma das concorrentes, Pixinguinha, que estava no Rio de Janeiro em uma homenagem aos seus 70 anos, sendo transferido para a terceira eliminatória. Entre as 11 restantes os destaques foram: “Tive Sim” de Cartola, defendido por Cyro Monteiro, e “Quando a Polícia Chegar”, de outro representante da velha guarda, João Baiana, defendida por Clementina de Jesus. Classificaram-se ainda, outros dois autores jovens, Sidney Miller (“Quem Dera”) com o MPB4, e Sérgio Ricardo (“Luandaluar”) com Marília Medalha, muito superior a malfadada “Beto Bom de Bola”.

A terceira etapa deixou vários veteranos de fora. Entraram para a final os sambas de Edu Lobo (“Rainha Porta Bandeira”), Billy Blanco (“Canto Chorado”), Pixinguinha (“Protesto Meu Amor”) e Elton Medeiros (“Pressentimento”). Ary Barroso foi o homenageado dessa eliminatória.

A final da I Bienal da Record, no dia 1º de junho de 1968, foi dividida entre duas torcidas dominantes, a de Elis Regina e a de Jair Rodrigues. Depois da apresentação de todas as classificadas Sônia e Blota, os apresentadores da noite anunciaram os premiados a partir do sexto colocado, “Coisas do Mundo, Minha Nega” de Paulinho da Viola, que não foi bem recebido. “Tive Sim” com Cyro Monteiro enfrentou a maior vaia da noite.

Adorado pela plateia, Jair Rodrigues conseguiu o quarto lugar, com “Canto Chorado”, mas “Pressentimento”, a terceira colocada, foi reapresentada sob intensas v aias, abafando a voz de Marília.

Elis Regina defende Lapinha, com Baden Powell e Os Originais do Samba na final do Festival

As duas primeiras colocadas causaram alvoroço. Em segundo lugar, Chico Buarque subiu ao palco e cantou sob brados de entusiasmo e Elis, a grande vencedora com “Lapinha”, foi recebida com flores pelo público.

A gravadora Philips lançou após a Bienal um LP oficial com as 12 finalistas, contando com vários intérpretes originais como: Elis, MPB4, Marília Medalha, Jair Rodrigues e Márcia.

 

 

Lapinha
(Baden Powell e Paulo César Pinheiro)
Intérprete: Elis Regina

Quando eu morrer me enterre na Lapinha,
Quando eu morrer me enterre na Lapinha
Calça, culote, palitó almofadinha
Calça, culote, palitó almofadinha

Vai meu lamento vai contar
Toda tristeza de viver
Ai a verdade sempre trai
E às vezes traz um mal a mais
Ai só me fez dilacerar
Ver tanta gente se entregar
Mas não me conformei
Indo contra lei
Sei que não me arrependi
Tenho um pedido só
Último talvez, antes de partir

Quando eu morrer me enterre na Lapinha,
Quando eu morrer me enterre na Lapinha
Calça, culote, palitó almofadinha
Calça, culote, palitó almofadinha

Sai minha mágoa
Sai de mim
Há tanto coração ruim
Ai é tão desesperador
O amor perder do desamor
Ah tanto erro eu vi, lutei
E como perdedor gritei
Que eu sou um homem só
Sem saber mudar
Nunca mais vou lastimar
Tenho um pedido só
Último talvez, antes de partir

Quando eu morrer me enterre na Lapinha,
Quando eu morrer me enterre na Lapinha
Calça, culote, palitó almofadinha
Calça, culote, palitó almofadinha

Adeus Bahia, zum-zum-zum
Cordão de ouro
Eu vou partir porque mataram meu besouro


 


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