Foi tumultuado o último dia de inscrições do III Festival da TV Record. Entre os retardatários estavam Chico Buarque e Edu Lobo, que deixaram para se inscrever na tarde do último dia. Mais de quatro mil músicas foram inscritas na disputa por 25 milhões de cruzeiros e pelo troféu Viola de Ouro para o primeiro colocado, 10 milhões para o segundo, 7 milhões para o terceiro, 5 milhões para o quarto e 3 milhões para o quinto. O melhor intérprete ficaria com a Viola de Prata. Dessa vez, além das partituras os concorrentes também entregaram gravações das canções inscritas.
Capa do LP do III Festival da Música Popular Brasileira - TV Record
Entre os compositores das 30 músicas selecionadas estavam a dupla vencedora do I FIC, Dori Caymmi e Nelson Motta (O Cantador), Luís Carlos Paraná (Maria, Carnaval e Cinzas), Pixinguinha e Hermínio Bello de Carvalho (Isso Não Se Faz), Johnny Alf (Eu e a Brisa), Geraldo Vandré e Hilton Acioly (Ventania), Chico Buarque (Roda Viva), Edu Lobo (Ponteio), Gilberto Gil (Domingo no Parque), outra de Gil em parceria com sua mulher Nana Caymmi (Bom Dia) e Sérgio Ricardo (Beto Bom de Bola). Entre os novatos, Renato Teixeira com “Dadá Maria”, Toquinho e Vitor Martins com “Belinha”, Sidney Miller (A Estrada e o Violeiro), Antônio Carlos Pinto (Festa no Terreiro de Araketu) e Martinho José Ferreira, que mais tarde seria conhecido como Martinho da Vila (Menina Moça).
Vários compositores assumiram também a posição de intérpretes, depois de perceberem que os cantores acabavam recebendo um reconhecimento muito maior que os compositores. Foram definidos como intérpretes Edu Lobo, Sérgio Ricardo, Caetano Veloso, Demetrius, Erasmo Carlos, Sidney Miller, Adilson Godoy, Geraldo Vandré, Chico Buarque e Gilberto Gil, sendo que com exceção de Chico, os outros pisariam no palco pela primeira vez. Roberto Carlos, Elis, Claudete Soares, Jair Rodrigues, MPB4, Ronnie Von, Wilson Simonal, Elza Soares, Sílvio César, Gal Costa, Márcia, Jamelão, Agnaldo Rayol, Maria Creusa e até Hebe Camargo também estariam no palco do III Festival.
A Philips, que mantinha em seu cast 18 dos artistas classificados, decidiu lançar três LPs com as 36 músicas selecionadas, usando outros 18 artistas da gravadora para as músicas restantes.
No dia 14 de setembro, os 12 integrantes de cada uma das três eliminatórias foram divulgados. As dificuldades junto à Censura complicaram a escolha do júri, que deveria equilibrar tendências esquerdistas e direitistas, evitando vantagens para qualquer um dos lados e mantendo um equilíbrio técnico e político. Todas as músicas só foram liberadas após a aprovação da Polícia Federal, que depois de avaliá-las, convocava Paulinho Machado de Carvalho, da TV Record, e indicava o que deveria ser modificado.
Torcidas organizadas tomaram conta dos dois mil lugares do Teatro Record na primeira eliminatória. O LP com as 12 músicas da etapa foi apresentado ao público pelos apresentadores, em uma enorme jogada de marketing da gravadora. Logo em seguida a primeira música foi anunciada: “O Combatente”, com o Quarteto Novo, Jair Rodrigues, com uma interpretação virtuosa e o próprio Walter Santos ao violão. Na sequência, Gal Costa e Sílvio César, cantaram “Dada Maria”, do estreante Renato Teixeira.
Depois de “E Fim”, com a autora Sônia Rosa, viria um dos momentos mais esperados da noite, Chico Buarque, acompanhado pelo Som Três e o MPB4, subiu ao palco para defender sua “Roda Viva”, recebida com entusiasmo e fortes aplausos pelo público. “Ponteio” foi representada com perfeição por Edu Lobo, Quarteto Novo, Momento Quatro e Marília Medalha sendo imediatamente considerada uma das finalistas. A canção de Johnny Alf, “Eu e a Brisa”, interpretada por Márcia e que mais tarde viria a ser considerada uma de suas maiores obras primas não causou nenhum tipo de reação na plateia.
Na seqüência, “Minha Gente” interpretada por Demetrius, “Ela Felicidade” com Claudete Soares, e “O Milagre” com Wilson Simonal não animaram o público. Em compensação, Roberto Carlos levantou os fãs do iê-iê-iê com o samba “Maria, Carnaval e Cinzas”, de Luis Carlos Paraná. A última música da noite, defendida por Nana Caymmi, com Gilberto Gil ao violão, foi “Bom Dia”. Classificaram-se “Bom Dia”, “Ponteio”, “Roda Viva” e “Maria, Carnaval e Cinzas”.
A segunda eliminatória, no dia 6 de outubro, teve como primeira concorrente a bossa romântica “Rua Antiga” de Roberto Menescal, como grupo vocal O Quarteto. Em seguida, “Brinquedo” com Claudete Soares. As duas só foram aplaudidas no final. O clima esquentou com a entrada de Simonal para defender “Belinha”, de Toquinho, que tocava violão ao seu lado, e Vitor Martins, muito aplaudida pelo público. A quarta concorrente foi “Por Causa de Maria”, com Sílvio César e os Titulares do Ritmo.
Gilberto Gil e Os Mutantes cantam Domingo no Parque
O público demonstrou entusiasmo com a canção seguinte: “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, que se apresentou acompanhado pela banda Mutantes, juntando seu violão, guitarra e baixo elétrico ao tradicional berimbau. Para Carlos Imperial, autor de “Uma Dúzia de Rosas”, houve uma vaia generalizada. Ronnie Von, o próximo a se apresentar e os Golden Boys, que acompanharam Adilson Godoy no samba “Manhã de Primavera”, também foram vítimas das vaias dos que se colocavam contra o iê- iê-iê. A noite ainda contou com a apresentação de “Diana Pastora” com o grupo Momento Quatro.
Elis defendeu “O Cantador” com a afinação impecável que lhe era peculiar, já Nara Leão e Sidney Miller cantaram hesitantes para um público que se cansou dos 70 versos de “A Estrada e o Violeiro”. Fechando a noite, Jair Rodrigues cantou “Samba de Maria” para uma plateia inconformada com a desclassificação de “O Combatente” defendida por ele na etapa anterior. Nesta eliminatória os classificados foram: “Domingo no Parque”, “O Cantador”, “A Estrada e o Violeiro” e “Samba de Maria”.
As entradas para a terceira eliminatória e para a final se esgotaram uma semana antes. Apreensivos com as vaias, cantores e compositores tentavam adivinhar quem seriam os vaiados da noite. O espetáculo começou com Geraldo Vandré e Quarteto Novo com
“Ventania”, na qual o boiadeiro de “Disparada” largava o cavalo para se tornar chofer de caminhão. Simonal apresentou “Balada do Vietnã”, Agnaldo Rayol, “Anda Que Te Anda”, ambas consideradas fracas. Neste clima aterrador, o MPB4 levantou o público com o frevo “Gabriela”, de Chico Maranhão”.A quinta concorrente foi um lindo samba de Pixinguinha, “Isso Não Se Faz”, cantado por Elza Soares, na sequência, outro samba, dessa vez, de Martinho da Vila, “Menina Moça”. Sérgio Ricardo foi responsável por um dos episódios mais marcantes dessa edição ao não conseguiu emplacar a sua “Beto Bom de Bola”.
Maria Odete passou em brancas nuvens com “Canção do Cangaceiro”, enquanto Erasmo Carlos teve sua “Capoeirada” mal compreendida, apesar da melodia ter atraído o arranjador canadense Percy Faith, que a gravou com sua orquestra e coral. O candomblé “Festa no Terreiro de Alaketu” foi cantado com mérito pela baiana Maria Creusa.
A grande vaia da noite foi para Hebe Camargo, que interpretou “Volta Amanhã”, considerada previsível e sem consistência. Em contraste, a última música foi a mais aplaudida: “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso, classificada para a final. As outras três selecionadas foram: “Ventania”, “Gabriela” e “Beto Bom de Bola”, esta última extremamente vaiada.
Caetano Veloso cantando Alegria, Alegria
Sábado, 21 de outubro. É hora da final. Pela segunda vez em sua trajetória pelos festivais, Nana Caymmi foi extremamente vaiada ao cantar “Bom Dia”. Nara Leão e Sidney Miller foram os segundos a se apresentar e dessa vez conseguiram dominar a inquietação do público. Caetano foi recebido com flores pela plateia que já sabia de cor a letra de sua “Alegria, Alegria”. Gil e os Mutantes, que entraram logo a seguir, também foram recebidos com aplausos. Mais uma vez o público se acabou de dançar com o frevo “Gabriela”, sombrinhas e guarda-chuvas foram abertos animando a festa.“O Cantador” interpretada por Elis Regina foi recebida com gritos de “Já ganhou!”.
Logo após, Sérgio Ricardo foi protagonista de um das mais polêmicas situações da história dos festivais. Sua “Beto Bom de Bola” mais uma vez foi intensamente vaiada pela plateia, chegando a encobrir a voz de Sérgio, que inconformado arrancou o microfone do pedestal e proclamou: “Vocês ganharam! Vocês ganharam! Mas isso é o Brasil não desenvolvido. Vocês são uns animais!”. Transtornado, ergueu o violão, arrebentando-o contra um pedestal e atirando-o à plateia. Essa atitude fez com que “Beto Bom de Bola” fosse desclassificada. Preocupados com a situação, Edu e Marília entraram apreensivos no palco para apresentarem “Ponteio”, que ao final saiu consagrada.
Sérgio Ricardo em um dos momentos mais polêmicos e marcantes dos Festivais: após a vaia do público, ele se levanta e quebra o violão, jogando-o na plateia. Essa reação desclassificou a música Beto Bom de Bola
Faltavam ainda quatro músicas. Vandré cantou “Ventania”, Roberto Carlos, “Maria, Carnaval e Cinzas”, Chico Buarque, recebido de pé apresentou “Roda Viva”, que possuía um dos mais perfeitos arranjos de toda a Era dos Festivais e finalmente Jair Rodrigues, intensamente vaiado.
Chico Buarque e MPB4, ovacionados pelo público, apresentam Roda Viva
Depois de meia hora de intervalo, o resultado. Elis Regina foi escolhida a melhor intérprete, Sidney Miller ganhou o prêmio de melhor letra. Em sexto lugar “Gabriela”, em quinto, “Maria, Carnaval e Cinzas”, resultado que gerou muitas vaias ao intérprete Roberto Carlos. O anúncio de “Alegria, Alegria”, como quarta colocada, fez com que o público mais uma vez se manifestasse pedindo “Primeiro!” O terceiro lugar ficou para “Roda Viva” de Chico Buarque e o segundo para Gilberto Gil, com “Domingo no Parque”, que rendeu ainda um prêmio especial de melhor arranjo para Rogério Duprat. Com “Ponteio”, Edu Lobo se consagraria pela segunda vez como vencedor de um festival de música popular, ovacionado pelo público.
Edu Lobo e Maria Medalha na apresentação de Ponteio, a grande vencedora do III Festival de Música da Record
O III Festival da Record, além de revelar a evolução dos artistas baianos Caetano e Gil, deixou claro a mudança no comportamento da plateia formada, em sua maioria, por estudantes sintonizados com canções que falavam sobre a realidade social brasileira, utilizando-as como forma de expressão de sua insatisfação com a ditadura militar.
Ponteio
(Edu Lobo e Capinam)
Intérprete: Marília Medalha
Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse ou amor, ou dinheiro
Era um, era dois, era cem
Vieram pra me perguntar
Ô você pra onde vai, de onde vem
Diga lá o que tem pra contar
Parado no meio do mundo
Senti chegar meu momento
Olhei pro mundo e nem via
Nem sombra, nem sol e nem vento
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola pra cantar
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola pra cantar
Era um dia, era claro, quase meio,
Era um canto calado, sem ponteio
Violência, viola, violeiro
Era a morte, em redor mundo inteiro
Era um dia, era claro, quase meio
Tinha um que jurou me quebrar
Mas não lembro de dor nem receio
Só sabia das coisas do mar
Jogaram a viola no mundo
Mas fui lá no fundo buscar
Se eu tomo a viola, ponteio
Meu canto não posso parar, não
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola pra cantar,
Ponteio, todo mundo pontear,
Pontear... ah!
Era um, era dois, era cem
Era um dia, era claro, quase meio
Encerrar meu cantar já convém
Prometendo um novo ponteio
Certo dia que sei por inteiro
Eu espero não vá demorar
Este dia estou certo que vem
Digo logo o que vim pra buscar
Correndo pro meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar pra cantar
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola pra cantar
Ponteio
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola pra cantar
Ponteio