

II Festival Internacional da Canção – FIC
Margarida – Gutemberg Guarabira
Em 1967, na mesma época em que acontecia o III Festival da Record, acontecia também o II Festival Internacional da Canção – FIC, que mais uma vez seria uma promoção da Secretaria de Turismo do Estado, mas com transmissão da TV Globo.
O festival já começou gerando polêmica. Antes de anunciar as 40 concorrentes que disputariam as duas eliminatórias, o secretário interino do Turismo da Guanabara, Carlos de Laet, comunicou que apesar escolha da comissão de seleção as músicas seriam submetidas à sua apreciação.
Foram selecionadas músicas de compositores conhecidos como Vinicius de Moraes, Dori Caymmi, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Capiba, Roberto Menescal, Pixinguinha, Sérgio Mendes, Edu Lobo, Chico Buarque e Geraldo Vandré. Entre os desconhecidos Toninho Horta, que ainda assinava Antônio Mauricio Horta de Mello, Paulo Tapajós, Gutemberg Guarabyra., Milton Nascimento e Fernando Rocha Brant.
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| Capa do disco lançado pelo selo Ritmos da Codil em 1967, com músicas do Festival |
Polêmica
O secretário de Turismo se deu o direito de excluir três músicas, “Balanço do Vento”, de Talita Pinto da Fonseca, “Maria Madrugada”, dos irmãos Horta e “Motivo”, de uma compositora que assinava apenas Sônia; e de ampliar o número de concorrentes de 40 para 50.
Na reunião com os compositores e a imprensa, Roberto Menescal questionou Carlos Laert sobre a retirada dos três selecionados. A resposta foi: “Nós mudamos porque o Festival é da gente e a gente acha que pode mudar”. Imediatamente Menescal decidiu se retirar do festival, mas o secretário interveio pedindo que o assunto fosse discutido em um outro momento. Dori Caymmi argumentou ainda sobre o aumento no número de classificados. Após uma outra reunião realizada pelos compositores ficou decidido que um documento seria elaborado e apresentado ao secretário, expondo suas condições para continuar no festival. Caso não fossem atendidos retirariam suas músicas e informariam sua decisão ao governador. Uma nova reunião com o secretário foi marcada para o dia seguinte. Depois de ser confrontado com a informação que umas das pessoas que haviam entrado na seleção era seu vizinho de porta e outra morava no mesmo prédio que ele, o secretário foi obrigado a voltar atrás e afirmar diante da imprensa que a escolha da comissão de seleção seria respeitada.
Tito Madi, Gilberto Gil e Carolina solicitaram a retirada de suas músicas, restando então 46 classificadas, sendo que destas, três eram de um mesmo compositor: Milton Nascimento.
À medida que os convidados internacionais chegavam, mais o Rio de Janeiro se agitava. Vieram delegações da França, Argentina, Bélgica, Chile, Peru e Estados Unidos, entre eles Johnny Mercer, um dos maiores letristas americanos, Allan Bergman e Johnny Mandel, em um total de 170 estrangeiros. O júri anunciado teria 17 integrantes, dois de São Paulo, um da Bahia, um de Minas e os demais do Rio de Janeiro, sendo que 11 deles eram jornalistas.
No dia 19 de outubro, quinta-feira, foi ao ar pela Rede Globo, o II Festival Internacional da Canção. A participação de Pixinguinha, então com 70 anos, com a música “Fala Baixinho”, cantada por Ademilde Fonseca foi uma grata surpresa. Geraldo Vandré foi ovacionado ao entrar, mas sua música “De Serra, de Terra e de Mar”, não convenceu.
Na seqüência, duas músicas de Milton Nascimento: “Maria, Minha Fé”, levada pelo cantor Agostinho dos Santos, e “Travessia”, com o próprio compositor, que aos 24 anos era considerado a grande revelação do festival. “Canção de Esperar Você” foi interpretada pela irmã do autor Fernando Leporace, Gracinha, que encantou a todos. A oitava a se apresentar, “Carolina”, defendida por Cynara e Cybele, foi uma barganha entre o autor Chico Buarque e Walter Clark que trocou a participação do compositor no festival pelo perdão de uma multa por descumprimento de contrato com um dos programas da emissora.
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| Gutemberg Guarabyra, que mais tarde faria parte do trio Sá, Rodrix e Guarabyra |
Da nona até a décima terceira competidora não houve nenhum destaque. O baião “São os do Norte que Vêm”, de Capiba e Ariano Suassuana, cantada pelo pernambucano Claudionor Germano levantou o ginásio com sua alegria carnavalesca. Mais quatro músicas se seguiram, até que o público voltasse a se manifestar positivamente. Os integrantes do grupo Manifesto, liderados pelo autor de “Margarida”, Gutemberg Guarabira, fizeram a plateia cantar em coro “E apareceu a Margarida, olê, olé, olá...”. Quatro canções ainda foram apresentadas e o público saiu do ginásio Maracanãzinho com as suas preferidas “Margarida”, “Travessia” e “Carolina”.
No mesmo dia da final do Festival da TV Record, que contava com artistas consagrados, foi a o ar a segunda eliminatória do II FIC. O primeiro da noite a se apresentar foi Milton Nascimento, que entrou sozinho com seu violão para representar sua terceira canção inscrita, “Morro Velho”. Foi a melhor coisa daquela noite. O restante das apresentações foi morno e nenhuma das outras 22 composições atraiu a atenção do público.
Para a final nacional foram selecionadas 11 músicas do primeiro dia e nove do segundo, sendo duas de Guarabira, duas de Milton Nascimento e duas de Alcivaldo Luz e Carlos Coqueijo. Também se classificaram Geraldo Vandré, Luís Bonfá, Edu Lobo, Francis Hime, Dori Caymmi , Luís Eça e Chico Buarque. Durante as apresentações dois compositores foram massacrados pelas vaias: Edu Lobo, com o “Canto da Despedida” e Geraldo Vandré. “Margarida” foi consagrada, sendo de longe a mais aplaudida e superando Milton Nascimento considerado a grande novidade do festival.
Milton foi escolhido como melhor intérprete e “Morro Velho” foi classificada em sétimo lugar. Chico Buarque foi premiado mais uma vez. “Carolina” ficou com o terceiro lugar. Outra composição de Milton “Travessia” conquistou o segundo. Apesar do favoritismo, a vitória de “Margarida” foi recebida sob vaias, o que não chegou a intimidar o baiano Guarabira.
Campeã da etapa nacional, “Margarida” concorreu na segunda eliminatória internacional, com mais de 30 canções estrangeiras, ficando com a terceira colocação. A grande campeã foi “Per una Donna”, de Marcello di Martino e E. Perreta. Com o segundo e sétimos lugares na final nacional, além do prêmio de melhor intérprete, o grande premiado dessa edição foi mesmo Milton Nascimento. Com o tempo, o II FIC tornou-se conhecido não como o festival de “Margarida”, mas como o festival de “Travessia”.
O contraste entre as músicas do II FIC e do III Festival da TV Record era imenso. A juventude de São Paulo demonstrou em 1967 que valorizava a música de seu tempo, expressão sonora do inconformismo com a situação política e social do país.
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Margarida
(Gutemberg Guarabyra)
Intérprete: Gutemberg Guarabyra
Andei, terras do meu reino em vão
Por senhora que perdi
E por quem fui descobrir
Não me crer-mais-ei aqui, me encerrei
Sou cantor e cantarei
Que em procuras de amor morri, ai!
Dor que no meu peito dói
Que destróis assim de mim
Bem sei que eu achei enfim
E que adiantou a dor,
Mas me queimou
Pois por não saber de amar
Ela ainda rainha está
E ela está em seu castelo, olê, olê, olá
E ela está em seu castelo, olê, seus cavaleiros
Ora peçam que apareça
Pois por mais que me eu me ofereça
Mais me evita essa senhora
Eu já fui rei, já fui cantor
Vou ser guerreiro, um perfeito cavaleiro
Armadura, escudo, espada,
Pra seguir na escalada
Belo motivo, é por amor que vou lutando
E pelas pedras do castelo
Uma eu já vou retirando
E retirando uma pedra, olê, olê,olá
Mais uma pedra não faz falta, olê, seus cavaleiros
Que ainda correm pelo mundo
Ouçam só por um segundo, que eu acabo de vencer
Retirei pedras de orgulhos, majestades,
Deixei todas de humildades,de amores sem reinado
Ela então se me rendeu
Eu já fui rei, já fui cantor, já fui guerreiro
E agora enfim sou companheiro,
Da mulher que apareceu
Apareceu a Margarida, olê, olê, olá
Apareceu a Margarida, olê, seus cavaleiros
Apareceu a Margarida, olê, olê, olá
Apareceu a Margarida, olê...
Seus cavaleiros!
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