I Festival Internacional da Canção – FICTV RIO
Saveiros – Nana Caymmi

Conhecido como o “Homem do FIC”, Augusto Marzagão criou o Festival Internacional da Canção, que teve sete edições, de 1966 a 1972, sendo seis dirigidas por ele. O festival, que reunia dois em um (fase nacional e fase internacional) contou com o apoio do secretário de Turismo e com a cobertura da TV Rio, depois de ter sido recusado pela TV Globo.

No dia 31 de agosto, foram anunciadas, no salão nobre do Palácio da Guanabara, as 36 selecionadas entre 1.956 inscritas, sendo três músicas de Capiva, uma de Geraldo Vandré e Tuca (“Cavaleiro”), “É Preciso Perdoar”, dos baianos Alcivando Luz e Carlos Coqueiro, “Dia das Rosas”,  Luís Bonfá e Maria Helena Toledo, “Beira Mar”, de Gilberto Gil e Caetano Veloso, “Minha Senhora”, Gilberto Gil e Torquato Neto, “Se a Gente Grande Soubesse”, de Billy Blanco, “Canto Triste”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, “Chora Coração”, de Baden e Vinicius, e “Saveiros”, de Dori Caymmi e Nelson Motta.

Entre os intérpretes estavam Maysa, Elis, MPB4, Agnaldo Rayol, Sílvio César, Dóris Monteiro, Maria Bethânia, entre outros. As 36 músicas foram divididas em dois grupos de 18. Os ensaios começaram dois dias antes da primeira eliminatória, no auditório da TV Rio, com a imprensa circulando entre músicos e cantores.

O júri, composto por 23 componentes representava correntes musicais variadas, na tentativa de evitar uma vencedora sem sabor popular. A decisão sobre as 14 finalistas só seria tomada após o término das duas eliminatórias, realizadas no Maracanãzinho, apesar da dificuldade de se ajustar o som no local.

A primeira música da noite foi “Guerra e Paz”, de uma autora desconhecida, Vilma Camargo, com uma intérprete também desconhecida, Penha Maria, que não gerou grandes entusiasmos. Entretanto, a terceira canção, cantada por Nana Caymmi, com o belíssimo arranjo do maestro Lindolpho Gaya, “Saveiros”, foi bem recebida, despontando como forte candidata. Elis defendeu “Canto Triste”, cantando corajosamente uma canção mais lenta, diferente do que o público esperava. Seguiram-se “O Amor É Chama” dos irmãos Valle, com Cláudia, e “É Preciso Perdoar” de Carlos Coqueijo e Alcivando Luz, com o MPB4. A última canção da noite foi “Amada”, com Estelinha Egg.

Saveiros, interpretada por Nana Caymmi em 1982,16 anos depois do festival

As músicas da primeira eliminatória foram consideradas tristes pelos estrangeiros presentes no Maracanãzinho, que sentiram falta da alegria do samba. Para Elis, “Canto Triste” era a música mais linda interpretada por ela até o momento.

A segunda eliminatória foi realizada no domingo seguinte e o som mais uma vez foi motivo de preocupação, chegando a prejudicar algumas canções. A primeira canção apresentada foi “Inaiá”, interpretada por Luiz Carlos Sá, mais tarde da dupla Sá e Guarabira. Na mesma noite, Maria Bethânia cantou “Beira Mar”, de Caetano e Gil, sua primeira e última apresentação em festivais. “O Cavaleiro”, com Tuca, a sexta da noite, conquistou o público. Muito tímida, Gal Costa, que acabara de chegar da Bahia, interpretou “Minha Senhora”, dos amigos Gilberto Gil e Torquato Neto, mas não agradou, apesar da surpreendente afinação, que chamou a atenção de Menescal. A décima primeira foi “Dia das Rosas”, interpretada por uma nova Maysa, destacando-se como uma possível finalista.

No dia seguinte, as 14 finalistas disputariam a grande final, com uma estimativa de 5 mil pessoas presentes no ginásio. “Canto Triste” e “Saveiros” mereceram atenção especial dos jurados. Depois de “Canção Brasileira” (Heckel Tavares e Luiz Peixoto), foi a vez de “Chorar e Cantar” (Vera Brasil e Sivan Neto), bastante aplaudida, com Claudete Soares. “Não Se Morre de Mal de Amor”, de Reginaldo Bessa, outra bem cotada, “É Preciso Perdoar” e “Inaiá”, que tinha até torcida organizada.

Mais uma vez, muito aplaudida, “O Cavaleiro” e “Se a Gente Grande Soubesse”, defendida por Billinho, de 10 anos, filho de Billy Blanco, e o Quarteto em Cy. “Dia das Rosas”, com Maysa, também recebeu muitos aplausos e foi seguida por “Canção a Medo” (Sérgio Bittencourt), outra com torcida organizada. Já “Apoteose do Samba” (Herivelto Martins e Klecius Caldas), com Miltinho foi vaiada. “Festa de Cores” (Capiba) foi a última, deixando claro que a preferência do público se dividia entre “Dia das Rosas” e “O Cavaleiro”. A essa altura, Maysa e Tuca precisaram de atendimento médico, de tanto nervosismo.

No intervalo, Chico Buarque, um dos integrantes do júri, não teve como fugir de subir ao palco e tocar sua “A Banda”, sensação do Festival da Record, realizado no ano anterior.

Na divulgação do resultado ficou claro que o público não concordou com a escolha do júri. Debaixo de muitas vaias, “Dia das Rosas” foi anunciada como terceira colocada. “O Cavaleiro” ficou com o segundo lugar e “Saveiros” foi anunciada a grande vencedora, representante do Brasil na final internacional, o que gerou um breve silêncio e uma vaia gigantesca.

Saveiros
“Saveiros” foi inscrita pouco antes do encerramento do prazo. A partitura estava guardada na gaveta de Dori Caymmi, de onde foi retirada para concorrer. A inspiração do autor foi a Bahia, seus pescadores e saveiros. A letra foi escrita por Nelson Mota, que tinha 21 anos. Nelsinho não conhecia a Bahia e nem sabia o que era um saveiro, o que lhe foi explicado por Dori.
 
Elis era a preferida de Nelsinho para a interpretação da canção, mas a escolha de Nana, feita por Dori acabou prevalecendo. Recém chegado dos Estados Unidos, Dori viu em “Saveiros” sua primeira oportunidade de mostrar competência e refinamento, cortando o cordão umbilical que o ligava o pai.

Etapa Internacional
Marzagão havia conseguido reunir um elenco de tirar o fôlego no Rio de Janeiro. Estavam na cidade os cantores Pedro Vargas, Yma Sumac, Amália Rodrigues e Jean Sablon; Maurice Jarre e Michel Legrand, da França; Horacio Malvicino e o compositor Julio de Caro, da Argentina; o autor de “Galopeira”, Mauricio Cardoso (Paraguai); Jimmy Van Heusen, Ray Evans, Jay Livingston, Nelson Riddle, Lex Baxter, Herb Alpert e Henri Mancini, todos americanos.

Na final, realizada entre os dias 27 e 30 de outubro, “Saveiros” ficou em segundo lugar, perdendo para “Frang den Wind” (“Pergunte ao Vento”), de Helmut Zacharias e Carl J. Schaubler.

 

Saveiros
(Dory Caymmi e Nelson Motta)
Intérprete: Nana Caymmi

Nem bem a noite terminou
Vão os saveiros para o mar
Levam no dia que amanhece
As mesmas esperanças
Do dia que passou

Quantos partiram de manhã
Quem sabe quantos vão voltar
Só quando o sol descansar
E se os ventos deixarem
Os barcos vão chegar
Quantas histórias pra contar

Em cada vela que aparece
Um canto de alegria
De quem venceu o mar


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