II Festival da TV Record
A Banda – Chico Buarque e Nara Leão e Disparada - Jair Rodrigues

Na década de 1960, a TV Record mantinha três programas que atendiam praticamente a todas as tendências da música popular brasileira: O Fino da Bossa, com Elis Regina e Jair Rodrigues (bossa nova), Bossaudade, com Cyro Monteiro e Elizeth Cardoso (velha guarda) e o Jovem Guarda, comandado por Roberto Carlos, Wanderléia e Erasmo Carlos. Na época, em plena ditadura militar, cada vez mais a juventude se identificava com a produção musical, transformando algumas canções em meios de expressão e protesto.

Em virtude do sucesso crescente dos programas musicais, em janeiro de 1966, a TV Record anuncia o II Festival da Música Popular Brasileira, já que o primeiro havia sido realizado em 1960, no Guarujá. Dessa vez, seriam 20 milhões em prêmios. Para produtor foi contratado o já experiente Solano Ribeiro, que logo após pedir demissão da TV Excelsior procurou Paulo Machado de Carvalho, da TV Record e apresentou a ideia.

Ficou estabelecido que a direção do festival escolheria os intérpretes, explorando o seu cast de cantores e cantoras dos programas musicais, apesar dos compositores terem liberdade para apresentar sugestões.

As 36 concorrentes das três eliminatórias foram selecionadas por uma comissão de especialistas, sob muito sigilo. Nenhum dos membros sabia quem eram os autores das músicas, atitude tomada para evitar que compositores renomados acabassem privilegiados.

A primeira eliminatória do II Festival de Música Popular da Record foi realizada no dia 27 de setembro, décimo terceiro aniversário da emissora.“Disparada”, de Geraldo Vandré, cantada por Jair Rodrigues, acompanhado pelo Trio Marayá e pelo Trio Novo, com uma instrumentação estranha: viola caipira, uma queixada de burro e um violão, tocado por Théo de Barros, parceiro de Vandré na composição, provocou uma vibração generalizada, tanto no público, quanto nos bastidores. Foram classificadas além de “Disparada”, “Um Dia”, a impetuosa “Lá Vem o Bloco” com Leny Eversong e “Canção de Não Cantar” com MPB4.

Jair Rodrigues defende Disparada no palco do Festival

Para a segunda eliminatória, realizada no dia seguinte, criou-se uma certa expectativa em relação as músicas defendidas por Maysa, Elis Regina e Nara Leão, que interpretaria “A Banda”, de Chico Buarque. Roberto Carlos classificou “Flor Maior” (Célio Borges Pereira) e Jair emplacou mais uma, “Canção Para Maria”, de Paulinho da Viola e Capinan. Classificaram-se ainda “Ensaio Geral” (Gilberto Gil) com Elis e, como era esperado, “A Banda”.

Na terceira eliminatória foram apresentadas as últimas 12 canções, mais “Adarrum” (Roberto Nascimento), que não pudera entrar na segunda em virtude de problemas nas cordas vocais da cantora Doroti. Antes mesmo do final da eliminatória “Disparada” e “A Banda” dispontavam como favoritas.

Bem aplaudida, Elza Soares classificou “De Amor Ou Paz” (Adalto Santos e Paraná). Maysa também levou “Amor, Paz”,em parceria com Vera Brasil, para a final. Já Elis emplacou mais uma, “Jogo de Roda”, o mesmo acontecendo com Nara em “O Homem” (Millôr Fernandes).

Nos dez dias seguintes, a cidade de São Paulo viveria em função do duelo entre “Disparada” e “A Banda”, marcado para a final do II Festival da Record. Quem tinha ingresso para a grande final era um privilegiado.

Chico e Nara Leão

A ordem de apresentação foi decidida por sorteio. A primeira foi “Disparada”. Dessa vez, Jair sairia do palco sob gritos de Já ganhou! A segunda foi “Canção de Não Cantar”, com o MPB4, vindo a seguir Elza Soares, com “De Amor Ou Paz”, e novamente Jair Rodrigues, com “Canção Para Maria”. A essa altura a platéia entusiasmada clamava por “A Banda”. Leny Eversong cantou “Lá Vem O Bloco” e em seguida, para delírio do público, foi sorteada “A Banda”. Defendida por Nara Leão e Chico Buarque, a música, como era esperado, foi acompanhada por um grande coro.

Não foi fácil para Maysa defender “Amor, Paz” e Elis foi vaiada ao entrar para cantar “Ensaio Geral”. Ela abaixou a cabeça, encarou quem a vaiava, apanhou uma flor e atirou sobre o público revertendo a situação, entrando em sintonia com os que esperavam versos inflamados, que pudessem ser interpretados como conteúdo político. Em seguida, a mesma Elis apresentou “Jogo de Roda”. Na sequência Roberto Carlos, Maria Odete e mais uma vez Nara, na mais criticada das 12 finalistas “O Homem”.

Bastidores
Nos bastidores, Chico Buarque se negava a receber o prêmio, caso sua “A Banda” ganhasse de “Disparada”. O cantor tinha consciência que a música de Vandré era melhor. “Eu não posso levar esse prêmio sozinho”, chegou a argumentar com Paulinho Carvalho. “Se ‘A Banda’ for a primeira, eu devolvo o prêmio em público”, dizia. Paulinho então propôs a Chico dividir o prêmio e este aceitou.

Quando o terceiro lugar foi anunciado, “Canção Para Maria”, Jair deduziu que não teria mais chance, por acreditar que o júri não premiaria duas músicas interpretadas pelo mesmo cantor. Ao saber do empate, a platéia, dividida gritava por Chico e Jair, gerando um enorme carnaval de comemoração da vitória.

Chico Buarque e Nara Leão cantam "A Banda". O prêmio de campeã foi dividido com "Disparada", e o público foi ao delírio

O único assumidamente descontente com o resultado foi Caetano Veloso, que bradava: “É ridículo que um festival termine com a música de Gil em quinto lugar! Foi a coisa mais importante feita até hoje na arte popular brasileira!”. Chico Buarque nunca se vangloriou ou sequer comentou o que aconteceu nos bastidores do II Festival da Record.

À época, dois LPs foram lançados com músicas de festival pela Philips e pelo novo selo Artistas Unidos (AU), criado pela Record.

Disparada
(
Geraldo Vandré e Theo de Barros)
Intérprete: Jair Rodrigues

Prepare o seu coração
Prás coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar...

Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar...

Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu...

Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei...

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei...

Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente...

Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu...

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei

A Banda
(Chico Buarque)
Intérprete: Chico Buarque e Nara Leão

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor...

 


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