I Festival da TV Excelsior
Arrastão - Elis Regina

Em 1965, foi a vez da TV Excelsior, líder de audiência há vários meses, segundo o IBOPE, lançar o seu festival. Para isso, Solano Ribeiro, coordenador de programação da emissora e incentivador da bossa nova no estado de São Paulo, por meio de vários programas dedicados à música realizados pela TV Excelsior, lançou mão de toda a sua experiência e contatos profissionais.

No momento João Gilberto e a turma da bossa nova, com Vinícius de Moraes e Baden Powell conquistavam grande receptividade do público, despertando uma nova geração de ouvintes da música popular.

As inscrições deveriam ser feitas mediante a entrega de partituras, uma exigência que segundo Solano limitaria o número de inscritos. Vários compositores da época foram contactados e a expectativa era que novos compositores, já reconhecidos por Solano, fossem lançados no mercado, composto por um público predisposto a aceitar a nova música brasileira.

Como Solano havia previsto, das 1.290 canções inscritas, foram selecionadas por uma comissão 36 músicas, entre elas composições de compositores que se projetavam, como Francis Hime, Baden Powell, Caetano Veloso e Chico Buarque. Chegava então a hora de pensar no elenco de intérpretes, o que para ele daria credibilidade ao evento e audiência ao festival.

Cada compositor só poderia ter uma música selecionada, entretanto, os intérpretes poderiam defender mais de uma canção. Foram convidados Elis Regina, Jair Rodrigues, os iniciantes Wilson Simonal, Claudete Soares e Geraldo Vandré. Entre os já consagrados, Agnaldo Rayol, Agostinho Santos, Altemar Dutra, Cauby Peixoto, Cyro Monteiro, Elizeth Cardoso entre outros. Todos seriam acompanhados pelo Trio Tamba ou pela Orquestra Excelsior.

Seriam 21 milhões de cruzeiros em prêmios, sendo 10 milhões para a primeira música, 5 milhões para a segunda, 3 milhões para a terceira, 2 milhões para a quarta e 1 milhão para a quinta.

A primeira eliminatória, realizada no dia 27 de março (sábado), no luxuoso balneário do Guarujá, teve transmissão direta pela TV Excelsior, canal 9 e contou com um público inesperado, que chegou a causar certo tumulto na entrada do salão do antigo cassino. Entre os jurados, críticos especializados e músicos de São Paulo e do Rio de Janeiro.


Elis Regina no palco do Festival

Elis Regina, a grande vencedora da noite, conquistou o público e o júri, com a interpretação de “Por Um Amor Maior”, de Francis Hime e Ruy Guerra. Em segundo lugar, “Sonho de um Carnaval”, do então jovem estudante de Arquitetura, Chico Buarque de Holanda, defendida por Geraldo Vandré. Foram classificadas ainda “Miss Biquíni”, interpretada por Márcia, e “Flor da Manhã”, por Alaíde Costa.

A segunda eliminatória, realizada no dia 30 de março, no auditório do canal 9, classificou cinco músicas e não apenas quatro como estava previsto. “Eu Só Queria Ser” (Vera Brasil e Miriam Ribeiro), com Claudete Soares, “Valsa do Amor Que Não Vem” (Baden e Vinícius), cantada por Elizeth Cardoso, “Rio do Meu Amor” (Billy Blanco) por Wilson Simonal, “O Amor Que Se Fez Canção”(Joubert de Carvalho) por Hugo Santana e “Arrastão”(Edu Lobo e Vinícius) outra interpretação irrepreensível de Elis.

A interpretação arrebatadora de Elis Regina, que durante sua performance lançou mão de dois recursos que viriam a ser marcas registradas de seu estilo – os movimentos de braço e a desdobrada (súbito rallentando) – ambos sugeridos pelo dançarino-coreógrafo ítalo-americano Lennie Dale gerou controvérsias e dividiu opiniões. Livio Rangan, diretor da Rhodiaceta, patrocinadora do festival, não gostou muito da receptividade à apresentação inusitada da cantora e tentou influenciar os jurados a optarem pela música defendida por Wilson Simonal e perfeita para o show de bossa nova que ele pretendia lançar após o festival.

Na terceira eliminatória, dia 3 de abril, o Hotel Quitandinha em Petrópolis foi o palco onde se revelaram as últimas classificadas: “Queixa” (Sidney Miller, Zé Kéti e Paulo Tiago) com Cyro Monteiro, “Jangadeiro” (João do Vale e Dulce Nunes) com Catulo de Paula, “Por Quem Morrer de Amor” (Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal) com Peri Ribeiro e “Cada Vez Mais Rio” (Luiz Carlos Vinhas e Ronaldo Bôscoli), com Wilson Simonal.

A próxima etapa seria a final no Rio de Janeiro. Os 12 classificados, representantes do que havia de mais novo na música brasileira, disputariam, no Teatro Astoria, o Berimbau de Ouro.

A pequena gigante Elis fez uma apresentação empolgante e, mais uma vez, “Arrastão” foi ovacionada pelo público. “Jangadeiro” e “Rio do Meu Amor”, a preferida de Livio Rangan, também tiveram boa receptividade.

O resultado foi anunciado por Bibi Ferreira, a grande estrela da TV Excelsior. O quinto lugar de “Cada Vez Mais Rio” fez com que o diretor da Rhodia se retirasse do recinto furioso. Wilson Simonal, o intérprete, se recusou a entrar no palco ao saber o resultado. O quarto lugar foi para “Queixa” e o terceiro para “Eu Só Queria Ser”, que depois seria gravada pela cantora Claudete Soares. “Valsa do Amor Que Não Vem” ficou com o segundo lugar, mais pela interpretação de Elizeth Cardoso do que propriamente pela música. A escolha do primeiro lugar foi aplaudidíssima. “Arrastão” consagrou sua intérprete Elis Regina.

Arrastão
Com “Arrastão” nascia o gênero música de festival, caracterizada por uma mensagem, como na letra de Vinicius, uma melodia contagiante, como a Edu Lobo, um arranjo peculiar, que levantava a platéia e uma interpretação marcante.

Esse foi o ponto de partida da música na televisão. A partir do I Festival da Excelsior , os programas musicais na TV brasileira seriam únicos no mundo.

 

Arrastão
(Edu Lobo e Vinicius de Moraes)
Intérprete: Elis Regina

Eh! tem jangada no mar
Eh! eh! eh! Hoje tem arrastão
Eh! Todo mundo pescar
Chega de sombra e João Jô viu

Olha o arrastão entrando
no mar sem fim
É meu irmão me traz Iemanjá
prá mim
Olha o arrastão entrando
no mar sem fim
É meu irmão me traz Iemanjá
prá mim

Minha Santa Bárbara me abençoai
Quero me casar com Janaína
Eh! Puxa bem devagar
Eh! eh! eh! Já vem vindo o arrastão
Eh! É a rainha do mar
Vem, vem na rede João prá mim

Valha-me meu Nosso Senhor
do Bonfim
Nunca, jamais se viu tanto
peixe assim
Valha-me meu Nosso Senhor
do Bonfim
Nunca, jamais se viu tanto
peixe assim


 


Capa do disco com a vencedora do Festival


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